Banco Central e a popularização do Pix

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O caminho é longo para o PIX ganhar escala e fazer parte do dia-a-dia dos brasileiros. Para isso, supermercados, farmácias e lojas com alta recorrência serão essenciais, porém a atuação desses segmentos do varejo segue silenciosa.

Este ano em fevereiro, Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), recebeu Carlos Eduardo Brandt Silva e Breno Lobo, do Banco Central, para uma reunião na sede da entidade, em Belo Horizonte (MG). O bate-papo de quase três horas foi centrado em um tema.

“Eles pediram ajuda para impulsionar o PIX”, disse Solmucci, sobre o sistema de pagamentos instantâneos que seria lançado pelo BC “E, pela alta frequência dos clientes e por lidarmos com tíquetes menores, em média, de R$ 16, temos mesmo uma grande contribuição para educar e dar confiança ao consumidor.”

Após nove meses, o PIX é uma realidade. O Pix foi lançado em 16 de novembro, na expectativa de substituir as TEDs e DOCs. Mas para ganhar, de vez, espaço entre os consumidores, precisará entrar na conta não só dos bares e restaurantes, mas sim, de todo o varejo.

“Houve todo um trabalho de convencimento e de estímulo”, explica Fabricio Winter, sócio da consultoria Boanerges & Cia. Ele destaca que, agora, o varejo será novamente essencial. “É o setor que está presente no dia a dia da população. O PIX só ganhará escala, de fato, se o varejo comprar essa ideia.”

Desde que lançou, o PIX movimentou R$ 9,3 bilhões, em 12,2 milhões de transações. O sistema computa 83,4 milhões de chaves, cadastradas por 34,5 milhões de pessoas físicas e 2,2 milhões de empresas.

Para fins de comparação, em 2019, as compras com cartões de crédito movimentaram R$ 1,84 trilhão, uma alta de 18,7% sobre 2018, informa a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Já as transações com cartões de débito cresceram 15,5%, para R$ 664 bilhões.

“Um dos grandes desafios do PIX é estabelecer uma dinâmica de recorrência”, relata fonte do mercado financeiro. “E isso passa, principalmente, pelos supermercados e farmácias, que geram compras regulares. São eles que vão incentivar o consumidor a sacar o celular no caixa.”

Um dos grandes nomes desses segmentos que já está nessa jornada é o Grupo Pão de Açúcar. O pagamento com o PIX, via QR Code, já está operando em lojas das redes Extra, Pão de Açúcar e Assaí, além dos postos e drogarias do grupo, que vem divulgando a novidade através de materiais dispostos próximos aos caixas de cada unidade. Porém, até então, não há incentivos ou descontos para o consumidor que escolher essa modalidade.

Em todas essas redes, as compras podem ser pagas em caixas com atendimento humano. Até dezembro, o GPA planeja expandir essa opção ao auto atendimento e também aos e-commerces das marcas.

Um estudo da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) só ressalta a importância que o GPA e todo o setor podem ter nesse processo. Segundo a pesquisa, o varejo restrito, que exclui a venda de carros e materiais de construção, gerou R$ 1,4 trilhão em 2019 e teve um impacto de 19,24% no PIB.

O varejo ampliado, por sua vez, faturou R$ 1,91 trilhão no período, um crescimento real de 3,9% sobre 2018. E com um impacto de 26,2% no PIB do País.

“Não há dúvidas que o PIX será transformacional na indústria de meios de pagamento”, diz Raul Moreira, diretor-executivo do Banco Original. “E é extremamente importante que haja uma reflexão sobre as vantagens e desvantagens de o comércio aderir a esse processo.”

Atrás do balcão

Enquanto o varejo é visto como o principal fator para a popularização do PIX, do outro lado da moeda, o sistema promete trazer benefícios para aqueles que estão atrás do balcão. Ainda mais em relação a outros meios de pagamento.

“Cartão de débito ou de crédito, por exemplo, é um dinheiro que custa caro para o varejista”, afirma Bruno Samora, retail manager da Matera, companhia que desenvolve softwares de conexão e liquidação de transações financeiras. “São muitos intermediários que vão cobrando pedágio pelo caminho.”

Para Samora, o PIX tende a ser mais barato para o segmento. “É quase uma transação direta, com menos elos envolvidos”, diz. A Matera tem cerca de cem clientes com projetos na área. Até o momento, poucos, porém, são varejistas. “Mas tenho certeza que o setor não ficará de fora desse processo.”

Essa é também a avaliação de Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar). Ele aponta um componente, em particular, para justificar essa projeção.

“A liquidação é imediata”, ressalta de Angelo. “Em segundos, o dinheiro está disponível para o varejista.” Nas compras pagas via cartão de débito, por exemplo, o prazo médio para o valor estar disponível é de dois dias.

Isso é apenas um dos benefícios que levaram a C&C Casa e Construção a utilizar ao PIX logo na largada. Em 19 de novembro, a varejista de material de construção passou a oferecer a opção de pagamento de compras pelo PIX em três unidades, em São Paulo, Campinas e Guarulhos (SP).

“O volume ainda é pequeno, mas quando o PIX ganhar corpo, essa velocidade do crédito vai fazer muita diferença”, diz Christophe Auger, diretor-geral da C&C, que faz, justamente, uma comparação com o cartão de débito. “Vamos ganhar dois dias e, ao mesmo tempo, dar mais uma facilidade ao cliente.”

O executivo diz que ainda é necessário provocar o consumidor e que, até o momento, de cada dez transações, uma é feita via PIX nas lojas da rede. No fim da semana passada, a C&C expandiu a alternativa a outras duas unidades, em São Paulo, e uma em Santo André, no ABC Paulista.

“Decidimos testar primeiro nessas lojas, para certificar que o processo está seguro”, afirma Auger. “Mas, passado o pico da Black Friday, o plano é estender ao nosso e-commerce e às demais 30 lojas da rede até o fim desta semana.”

A C&C é um dos poucos varejistas a anunciarem a entrada no PIX. E a Black Friday, realizada na semana passada, é justamente um fator que explica a aparente falta de movimentação do setor. “Houve uma conjunção infeliz de datas e uma priorização de projetos. Mas o varejo não está parado”, diz Samora, da Matera.

A proximidade do lançamento do PIX com a Black Friday travou, de fato, esse impulso. Mesmo varejistas que já utilizam dessa solução em seu portfólio, como Magazine Luiza, Mercado Livre, B2W e Via Varejo, decidiram não usar o PIX na data promocional.

Há outra questão na mesa. “Existe muito interesse mas, agora, o PIX está longe de ser uma preocupação. O foco é a pandemia”, diz Solmucci, da Abrasel. “No nosso setor, 30% das empresas quebraram. E das que sobraram, 53% estão operando com prejuízo.”

Em compasso de espera

A Black Friday e a pandemia não são, porém, os únicos elementos por trás desse silêncio. Outros elementos indicam que o PIX ainda tem um caminho longo a percorrer antes de implantar em grande escala no segmento.

A Stone realizou uma pesquisa no início do mês, com 1.065 lojistas de todo o País, mostrando um pouco desse panorama. Apesar de 64% dos comerciantes saberem o que é o PIX, 77% afirmam que, no momento, não estão ou não sabem se estão prontos para realizarem transações pelo sistema.

Do total de entrevistados, 24% relataram ainda não ter segurança quanto à plataforma. E as dúvidas mencionadas incluem algo que chama a atenção: a preocupação com as taxas envolvidas no processo.

“Isso ainda não está claro para o lojista”, afirma Solmucci. “Até agora, não houve a sinalização por parte dos grandes bancos e adquirentes de que haverá incentivos para a adoção do PIX.”

Winter, da Boanerges & Cia, destaca duas razões por trás desse contexto. A primeira delas, o foco dos bancos em atender os interesses – e as chaves – dos consumidores. E a outra, a postura devagar e reativa dessas instituições e dos adquirentes em frente a ameaça que o PIX pode trazer aos seus negócios.

“Muitas dessas empresas ainda não sabem como entrar nesse jogo e estão correndo um sério risco”, diz. Ele cita que pequenos varejos, como lojas de bairro, já estão registrando suas chaves e operando no sistema, um processo que não envolve, necessariamente, a participação desses grandes atores.

Simultaneamente, Winter diz que empresas como Mercado Pago e PagSeguro estão mais ativas com o varejo. Elas vêm esbarrando, porém, na resistência das grandes redes do setor. “As grandes redes querem ser atendidas pelos fornecedores tradicionais que, por sua vez, ainda não viabilizaram suas ofertas.”

Entretanto, uma das seguintes funções a serem lançadas na agenda do BC para o PIX pode ajudar a alavancar essa transição. Trata-se do Saque PIX, com previsão de vigorar no primeiro semestre de 2021.

O modelo vai autorizar saques direto no caixa de supermercados, farmácias e afins. Enquanto os consumidores sairão das lojas com o dinheiro em mãos, os lojistas receberão automaticamente em suas contas o valor sacado.

Esse formato vem como uma alternativa para reduzir custos como segurança e transporte com a sangria, como é chamada a ação dos varejistas de depositarem dinheiro no banco, no fim de cada dia. Especialmente nos segmentos nos quais há maior recorrência de pagamentos em dinheiro em espécie.

“Isso trará muitos benefícios para o consumidor, que terá dinheiro disponível na venda da esquina, no supermercado e na farmácia”, diz Winter. “Já para esses lojistas, pode reduzir custos e gerar mais movimento, mas será preciso tomar cuidado para equilibrar as filas no check out.”

Com mais de trinta anos de experiência no varejo – ele brinca que começou no setor em um tempo em que se contava “estoque com lápis atrás da orelha”, Auger, da C&C, sabe que o PIX terá um tempo natural de maturação nesse espaço. Mas ressalta:

“O fato de o PIX permitir não carregar mais dinheiro no bolso vem ao encontro da demanda dos clientes por mais facilidade e pelo digital”, afirma o executivo. “E o varejo vai ter que incorporar isso. Não há escolha. Do contrário, ele não terá condições de atender esse novo consumidor.”

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